Os cem metros finais

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Crédito da Imagem: http://SXC.HU

Sempre fui mais adepto das corridas curtas. Cem metros rasos era a minha preferida. São poucos segundos intensos e voilá. Acabou. Uma explosão de adrenalina e mais alguns metros desacelerando, preparando toda a máquina para retornar gradativamente ao estado inicial. Sofrimento rápido, quando o ar queima nos pulmões, quando os músculos se estiram tanto que a sensação é de que vão mesmo arrebentar a qualquer momento, como um elástico velho. Concentração total naqueles segundos.

Quando me vi obrigado a percorrer uma maratona, evitei como pude. Resisti. Argumentei que não tinha preparo para essa modalidade, mas não teve jeito, convenceram-me. Como podem notar, resistência não é o meu forte.

Logo nos primeiros metros da tal maratona senti o peso de carregar as pernas no trote. Tentei fugir da corrida algumas vezes, mas sempre me flagraram antes que eu conseguisse concluir o intento. Durante o percurso descobri alguns truques para manter o fôlego e cheguei a tropeçar várias vezes, alguns desses tropeços quase me levaram ao chão. E mais vezes tentei fugir pela corda lateral que ladeava a pista. Mais vezes fui impedido.

Agora sinto que está perto. Já não sinto as dores dos tendões esticados, acho que adormeceram, ou adormeceu a minha capacidade de senti-los. As cócegas causadas pelo suor em minhas têmporas e costas já não me tiram do sério, me livro delas com uma passada de mão e é só isso. A água que me dão no caminho para refrescar já não me acalma, ou traz esperanças, sei bem que é um refresco temporário. Meu corpo quer se curvar, só penso em deitar, adoraria dormir. Vejo ao longe o que parece ser a linha de chegada e calculo que restam somente uns cem metros. Me pergunto se conseguirei chegar lá bem, mas tenho a impressão de que não. Dou uma olhada para trás e penso se conseguirão terminar sem mim. Imediatamente me repreendo, afinal quem sou eu para pensar que farei tanta falta assim? Cada um segue nessa maratona no seu ritmo. Sigo no meu, com muito esforço, mas sabendo que talvez não tenha feito o suficiente para conquistar um podium e que agora, nos cem metros finais, não dá mais tempo.

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2 comentários sobre “Os cem metros finais

  1. Tenho uma personagem em que defini sua vida como “estou a me preparar a vida inteira para essa São Silvestre” e a vida é isso mesmo: uma bela maratona, mas chegar só podiam nem sempre é o objetivo, às vezes, concluir é mais importante. Bacio

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