Assassinatos

Crédito da imagem: http://sxc.hu - Standard restrictions apply
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Abri a porta e saí, como fazia todos os dias para ir para o trabalho. Antes de fechar a porta dei uma última espiada pela fresta e vi as ondas de seus cabelos castanhos. Enquanto cruzava o pequeno caminho de pedras que levava ao portão, notei as pedras, distribuídas disformemente entre si, que o formam, com graminhas insistindo em crescer entre elas e pensei que aquela, provavelmente, seria a última vez que passaria por ele, que o veria, afinal. Veio um bolo na garganta e uma espécie de emoção ameaçava a secura de meus olhos. Pensei nela e em nossa última discussão e aquilo passou. Cheguei ao portão e abaixei a maçaneta, que por sua vez levantava o ferrolho que prendia o portão ao muro. Reparei em sua tinta branca descascada que mostrava a ferrugem em vários pontos. Aquela sensação voltou forte, então busquei em minhas memórias o cachorro que mordia e arranhava e que era o grande culpado pelo estrago, lembrei do dia em que foi morto envenenado e novamente aquilo me deixou. Fechei o portão e virei, dando de cara com uma vizinha do outro lado da rua, que fez um aceno me cumprimentando. Fofoqueira de uma figa, estava sempre por perto, sabia da vida de todos. Corri em sua direção e torci seu pescoço, depois a joguei no chão e com o calcanhar transformei aquela cabeça faladeira em uma massa de sangue, ossos e pedaços do que ela devia chamar de cérebro. O que foi que eu fiz??? Perdi o controle!!! Ouvi uma voz me chamando.

– Marcelo! Tá indo pro ponto? Quer carona?

Era a fofoqueira, atravessando a rua na minha direção. Achei estranho. Será que era um fantasma? Por cima de sua cabeça olhei para o outro lado da rua, mas seu corpo já não estava lá caído, desfigurado. Quanto tempo teria se passado? Será que eu tinha me livrado do corpo? Verifiquei meu sapato, nenhum sinal de sangue. Resolvi fazer o jogo. Andamos até o ponto, eu mergulhado em pensamentos, dando respostas monossilábicas enquanto ela vomitava as últimas notícias da vizinhança. Duas quadras e viramos a esquina, mais alguns metros e estávamos no ponto do ônibus, que aquela hora estava vazio, a rua toda estava vazia. Sentamos, esperando pelo ônibus. Seu olhar parou na mochila que tirei do ombro e ajeitei no colo.

– Vai viajar?

A Mochila. Ela notou a mochila! Olhei em volta e investi para cima dela dando-lhe uma gravata. Apertei firme até que suas pernas parassem de mexer e o corpo afrouxasse em meus braços. Olhei em volta, me certificando de que ninguém tivesse visto.

– Marcelo! Tá no mundo da lua hoje, hein? Vai viajar?

A louca ainda estava ali. Claro! Desde quando fantasmas morrem?

–    Não. É que vai rolar uma pelada hoje depois do expediente com o pessoal da firma e me chamaram…

Estava sempre ligada em tudo, a desgraçada.

– Ah, é… É bom dar uma relaxada de vez em quando…

O ônibus chegou. Subi e sentei num banco na janela, ignorando o desagrado da fofoqueira. Ela que fosse sentar em outro lugar se quisesse a janela. Fiquei vendo o campinho se distanciando, com sua maior parte desgastada, mais areia do que grama, onde passei boa parte da infância e da adolescência. O aperto no peito e o nó na garganta voltando. Tratei de pensar nela, os cabelos castanhos pela fresta, seus olhos arregalados, caída no chão da sala, com a faca enfiada na barriga e o corte na garganta jorrando sangue. Então aquilo me deixou e segui, para nunca mais voltar.

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