Menina-Estrela

Um Miniconto que não é exatamente mini. 😉 Só avisando.

Créditos da imagem: http://sxc.hu
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Era uma menina-estrela. Tinha uma determinação indestrutível. Uma alegria incomparável. Adorava ser o centro das atenções. E era, sempre. Do pai escutava muito a frase “Tu és uma artista!” (o equivalente ao atual “Que figura!”). Acabou acreditando. Estava sempre numa espécie de palco, desde muito cedo gostava de representar e cantar. E sempre dava um jeito de estar se apresentando. Na escola era sempre escolhida para os papéis principais, ou para leituras de textos importantes nos eventos. No show de calouros, organizado todo ano, ela se inscrevia. E inscrevia as melhores amigas junto, depois as avisava. Ao sinal de desespero das colegas ela as tranquilizava, dizendo que elas só precisavam fingir que cantavam e copiá-la na coreografia, ela cantava por elas. Era líder. Conseguia manter a turma em silêncio em troca de uma apresentação sua nos minutos finais da aula. Tudo arranjado com a professora que, pelo silêncio, aceitava. E ai de quem a desobedecesse. Às vezes tinha fila na quadra, onde marcava com os meninos para lhes dar uns tapas. Era invocada. E eles iam, porque, apesar de ser uma pimentinha, como diziam alguns, eles eram apaixonados por ela. Talvez fosse exatamente por ser abusada, destemida e tudo o mais. Mas ela nem percebia isso. Achava mesmo que eles tinham medo dela.

Mais tarde, mas ainda uma menina, com seus onze anos, soube que uma emissora de tv estava selecionando grupos infantis para lançar no mercado, nos trilhos do Trem da Alegria. Achou que fosse sua chance. Pegou o gravador de mão, daqueles que tinham rádio e toca-fitas, e, convencendo as irmãs, vizinhas suas, a participarem, gravou músicas que fazia sem nenhum instrumento, pois nunca tinha tido aula de nenhum e nem tinha algum em casa para aprender sozinha. Escrevia as letras e a melodia vinha junto. E achava aquilo a coisa mais natural do mundo. Era assim que se fazia música, ela vinha. Simples. E essa foi sua primeira decepção. Não sei ao certo se ela mesma preparou a fita para colocar no correio, se pediu a ajuda da mãe para isso, ou se acabou desistindo de mandar, a verdade é que não foi chamada pela tal emissora de tv para ir lá apresentar suas músicas. Fosse o que fosse que tivesse atrapalhado seu sonho, a triste verdade é que ele nunca se realizou.

Mas quem foi que disse que ela desistiu? A menina-estrela tinha se transformado na adolescente-rebeldia. As injustiças que havia sofrido se encarregaram disso. Era uma questão de sobrevivência. Continuava determinada e mantinha sua estrela brilhando. Alegre e comunicativa fazia amigos com muita facilidade. Então, quando mudou de cidade foi logo se entrosando com outros adolescentes com os mesmos interesses. Mostrou uma música sua e tentou formar uma banda. Não funcionou com os primeiros, mas anos depois conseguiu encontrar os parceiros certos e lá foi ela, em busca de seu sonho novamente. Gravaram músicas, participaram de coletâneas em LP e depois CD, fizeram muitos shows e depois de alguns anos, muitas portas fechadas e um tanto de decepção, acabaram encerrando as atividades da banda. A vida lhe apresentava outros caminhos.

A menina-estrela, adolescente-rebeldia, era agora a mulher-batalha. Trabalhava com coisas que detestava, somente para seu sustento, enquanto buscava cursos que lhe garantissem um caminho mais próximo do que gostava e queria. Continuava determinada, derrubava muralhas, às vezes aos socos e pontapés, às vezes com a ajuda de mãos amigas, como as do companheiro, às vezes com a cara, que dava involuntariamente nos obstáculos pelo caminho.

Um dia a menina-estrela, adolescente-rebeldia, mulher-batalha percebeu que tinha sofrido nova transformação. Era agora a senhora-nada. Olhava para trás e via o longo caminho que tinha percorrido, tentava entender onde tinha errado, se tinha desviado do percurso e descobriu que não. Deslocou-se sim, como nos deslocamos em meio da mata fechada, contornando árvores, pulando riachos, tentando seguir a luz do sol, que às vezes aparece sutil entre alguns galhos menos densos, mas nunca parou, nunca desistiu. Tinha tanta certeza de seu destino que viveu a vida inteira se preparando para ele. E agora, se olhava no espelho e percebia que sua vida tinha sido um busca infrutífera. Passou a vida inteira se preparando para entrar em cena e agora só lhe restava o fechar das cortinas. Cai o pano.

Créditos da imagem: http://sxc.hu
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