Um passeio, ou Em 30 minutos

Crédito da imagem: Http://Sxc.hu
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Tinha que sair. Só pensar nisso já a deixava cansada. O calor que estava fazendo não estimulava passeios. Mas tinha que fazer e decidiu fazer de uma vez, como um remédio amargo que tomamos de um só gole.

Preparou mentalmente a lista de coisas que tinha que fazer e foi.

Andou três quadras e já se deparou com um carro de polícia estacionado na calçada, em frente ao banco. Boa coisa aquilo não indicava. Aproveitou o sinal fechado e acelerou o passo para ficar longe das imediações daquele cenário. Só por precaução.

Foi na escola da filha, pegou o documento que precisava ser assinado e voltou ao calor abafado da rua.

Meia quadra e captou um trecho de uma conversa por telefone de um homem que andava pelo meio da rua: “…você não percebe quando eu tenho que dar sangue e amor pro trabalho… não vê quando fico em casa mais tranquilo, sabadão…”

Pensou em como ele chegaria no próximo cliente depois do trânsito, do calor e da DR…

Mais ou menos a uma quadra dali ela entrou na fila da lotérica. Notou a mulher a sua frente ordenando o cachorro que a acompanhava a sentar. O que ele fez imediatamente. Mas ela não se deu por satisfeita e ficou puxando a coleira e dizendo: “Não aí, aqui.” Jura? Amiga… a ordem foi clara: “Senta!” ele sentou. Isso a fez pensar em quantas vezes fazemos as perguntas/pedidos equivocados e depois ficamos resmungando que a resposta não foi a esperada…

Duas quadras e ela chegou ao mercado, onde constatou o aumento abusivo da água de coco (juro que não consigo aceitar a falta do acento – leia côco, por favor) de um dia para o outro e também a etiqueta com valor antigo em outra prateleira do mesmo produto. Pensou em pegar e exigir o preço mais baixo. Se sentiu cansada para discutir. Não, hoje ela levaria a limonada mesmo.

Saindo do mercado, andou mais meia quadra e a cena que se apresentava, para quem quisesse ver (e vários transeuntes paravam para assistir), era a de uma mulher gritando, batendo e jogando uma sacola, com não sei o que dentro, num homem mais velho, um senhor, mas não tão velho que pudesse ser considerado um idoso. Ele, por sua vez, com sua barriga saliente, apesar de atravessar a rua correndo (dela), voltava para discutir. Não parou para assistir e seguiu seu caminho, para então ouvir em altos brandos um taxista que gritava, após fazer uma curva: “Seta é o caralho!!!” Claro… pensou, provavelmente algum pedestre gritou para que ele desse seta, mas como o pedestre estava atravessando com o sinal fechado para ele e verde para os carros, o “profissional do volante” se sentiu ofendido por ter sido chamado a atenção.

Acelerou o passo, querendo chegar logo em casa e encerrar o seu “passeio” de 30 minutos, pois as ruas estavam cheias demais de pré-zumbis. Pessoas estressadas, irritadas, surtadas e surtando. Sintomas de uma vida baseada na insegurança de uma grande cidade, achacada pela violência, que exigia atenção demais, gerando tensão demais. Lembrou porque, além do calor, não gostava mais de sair de casa.

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