Na Areia

Crédito da imagem (a contra gosto, pois o site tem me derrubado enquanto busco imagens): http://sxc.hu
Crédito da imagem (a contra gosto, pois o site tem me derrubado enquanto busco imagens): http://sxc.hu

Estava sentada na beira da praia, observando o mar e suas ondas, o vento e os redemoinhos na areia, as pessoas e…aff… só via seus egos. Enormes e reluzentes, ofuscando a paisagem, interrompendo o silêncio com suas…arg…vozes…

As ondas insistiam em suas pequenas arrebentações, deixando sulcos molhados na areia. O vento dançava em pequenas e delicadas piruetas com a areia. Tatuís saiam da parte molhada, tentando pegar a onda, mas ela já tinha partido e ele voltava a se enfiar… na areia… como era desejada essa tal areia!…

Enfiei meus pés nela. Quentinha, aconchegante…

No calçadão, um pai, de dedo em riste, esbravejava com a filha, uma menina de seus sete anos “ela não quer você, ela quer o meu dinheiro…”, que coisa horrível para se dizer à uma criança…

Enfiei minhas mãos na areia quentinha, como garras, como quando seguramos algo com força para não esmurrar alguém, e descobri que no fundo ela era fria, tão diferente da superfície…

No grupinho, próximo de onde eu estava sentada, um rapaz se orgulhava da vantagem que tinha levado em cima de alguém, na mais asquerosa malandragem. Todos riam, achando divertido e aprendendo a manha…

Levei as mãos, agora mãos à milanesa de areia, quente na superfície e fria no fundo, até as orelhas. Acho que queria mesmo era enfiar a cabeça na areia, como um avestruz…

De repente uma gritaria furou a barreira das minhas mãos à milanesa e me chamou à atenção. Dois policiais encararam a areia (aquela tão desejada pelo vento, pelas ondas e pelo tatuí) para apartar uma pequena multidão que arrastava um “suspeito” de roubo, na tentativa de amarrá-lo ao poste (como gritavam alguns), ou linchá-lo (o que parecia ser o desejo da maioria. Bem, ao menos dos mais inflamados)…

Comecei a jogar areia em minhas pernas… o som foi ficando abafado e a claridade parecia ter sido coberta por uma película, como uma placenta (imaginando que assim deva ser a visão de dentro da barriga de nossas mães) e eu já não me mexia. Acho que de tanto desejar não ser mais parte daquela raça, sofri uma metamorfose, descobri que tinha virado uma concha. E esse foi meu último pensamento (des)humano.

(Este surgiu enquanto postava um comentário no blog Sacudindo as Ideias, da colega Roseli – ótimos textos, confere lá –  e me ocorreu o seguinte pensamento: “às vezes tenho medo de virar uma concha”. Não coloquei no comentário, veio pra cá) 😉

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s