Relato de um Rebelde

           Hoje sei que fui muito querido e privilegiado, mas… vamos do início, pois não sabia disso na época.

         De 4 irmãos fui o único pretinho, um era pardo, como o papai, e os outros dois branquinhos. Nossa família resolveu doar meus irmãos, mas com receio de ninguém me querer pela minha cor, ficaram comigo.

           Depois de um tempo, não me entendia mais com minha mãe, quase nos matamos uma vez, então ganhei uma casinha só pra mim, assim como minha mãe e meu pai tinham as suas. Só que a minha era pequena. Eu, muito nervoso e revoltado tentava escapar dali de qualquer maneira, me sentia prisioneiro naquele lar solitário. Perturbei tanto que ampliaram minha casa, que ficou com dois andares. Uma engenharia bem legal, devo admitir.

            Eu continuei rebelde. Tentava, durante toda a noite destruir aquela prisão.

           Minha família achava que podia me acalmar conversando e brincando comigo, limpando minha casa e me dando guloseimas, mas nada disso importava, eu queria ser livre.

           Minha família arrumou um terreno cercado, com espaço de sobra para me aventurar, construíram uma espécie de parque, mas tentei derrubar a cerca. Levei noites inteiras trabalhando nisso. Me descobriram quase na última noite, frustrando meus planos de fuga.

            Por fim, acharam que era a proximidade com minha mãe que causava isso e, tendo aparecido uma família interessada em ficar comigo,  me deram para adoção.

          Minha nova família me dava mais liberdade, mas ainda não era suficiente e, num descuido deles, consegui fugir.

           Nessa fuga descobri um mundo novo… e novos perigos. Ferido e perdido não sabia como voltar, mas minha antiga família veio ajudar, trazendo minha mãe para que sua presença me orientasse no caminho de volta. Mas não resisti aos ferimentos e, num último ato de rebeldia, pulei para meu fim trágico, ainda muito jovem.

            Foi o preço da minha rebeldia. Reza a lenda que os heróis morrem cedo. Os rebeldes também, aprendi.

Foto por Márcia Tondello
Foto por Márcia Tondello

*Pretinho era um hamster rebelde sem causa e tão mimado quanto seu pai e sua mãe.

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