Discursos Descuidados

ATENÇÃO: Texto polêmico!! Não recomendado às pessoas sensíveis, ou facilmente subjetivadas.

Aviso: Os comentários são gerenciados. Ofensas não são permitidas. 😉 Mesmo.

Foto por Márcia Tondello
Foto por Márcia Tondello

       O termo “Estado Laico” entrou em voga em 2013, quando um representante da igreja evangélica, o Pastor Marcos Feliciano, assumiu o cargo de presidente dos Direitos Humanos e a outra banda, dos homossexuais, sentindo-se prejudicada por sua perseguição aos pertencentes à essa camada da sociedade “descobriu” o termo e resolveu trazê-lo à tona, afinal de contas, se um representante de uma determinada religião assume um cargo tão importante no país, o “Estado Laico” entra em desequilíbrio, não é mesmo?

             Até aí, ok.

           Só um parêntese, que acredito até mesmo desnecessário, pois todo mundo já deve saber o que significa a essa altura, mas que acho que devo fazer: Estado Laico é o conceito de um país, uma nação com liberdade religiosa, em que todas as religiões são permitidas e respeitadas; em que uma religião não se impõe à política do país. Em outras palavras, o poder não apoia nem se opõe a nenhuma religião.

      Isso dito vamos à questão: Recentemente um grupo de uma universidade pública teve um vídeo, que vazou na internet, indo parar na imprensa, tamanho barulho que causou nas redes sociais, por conter cenas bizarras de promiscuidade e violência com requintes ritualísticos (costurar uma vagina… tenha dó).

            Um professor veio em defesa do evento, através de um texto em sua página pessoal de uma rede social, usando para ela o termo “Estado Laico”. Vamos pensar sobre isso?

      Primeiramente, reforço o já dito em outras crônicas, que acho extremamente perigoso um posicionamento muito apressado das coisas, especialmente quando ele se apoia no senso comum que crucifica, ou enaltece, algum “lado” (como se pudéssemos dividir o mundo em categorias como BEM e MAL). Antes acho necessária uma leitura de fontes variadas e, quando digo leitura, digo uma leitura transversal, transpassada por uma reflexão não partidária (ainda sobre o senso comum e o lado do bem e do mal).

             Quando alguém usa o termo “Estado Laico” para defender uma “ação cultural”, essa pessoa assume que essa ação cultural tem uma premissa religiosa. Ou isso, ou é desinformada e está só fazendo uso de um termo que “está na moda”, buscando conquistar simpatizantes, ou confundir os menos atentos. Vai saber…

              O professor, antes citado, no mesmo texto em defesa do evento, diz se recusar a discutir o que é arte, ou não. Esse é um ponto que concordo, de certa forma, discutir o que é arte, ou não, depois de Marcelo Duchamp e seu mictório, leva a discussão para outra categoria. Filosófica e altamente sofista. Que o digam Tales de Mileto, Sócrates, Schopenhauer e tantos outros que dedicaram suas vidas ao pensamento e às formas de convencer os outros de suas ideias através de discursos.

             E por falar em discursos… eu acredito que todo advogado deveria fazer graduação em teatro também. Explico: Não existe ninguém que trabalhe tanto a argumentação quanto o ator. Todo o elemento de uma composição precisa apoiar o discurso, ou seja, cada palavra, cada gesto, o ritmo imposto a eles, a escolha da roupa, da luz, do som, ou silêncio, toda ação, tudo deve ser justificado pelo discurso; pelo que está sendo defendido pela personagem (ou pelo ator por trás da personagem, ou ainda pelo encenador da peça). Pronto. Se tudo tem que ser justificado, você precisa inserir o que você está fazendo/usando no discurso. Justifique! Se precisar recorra a Schopenhauer…rs

             Explicado o envolvimento do ator (e, por consequência, da arte – aquela que não vamos discutir), entendemos o poder argumentativo dos envolvidos em uma “produção cultural” para defendê-la. Sabe quem será o maior apoio para sua defesa? O senso comum. Vamos culpar a “mídia sensacionalista”. Espera! A “mídia sensacionalista” estava de plantão para fazer um vídeo e disseminar nas redes sociais, de forma altamente articulada, fazendo parecer que foram alunos e/ou professores que presenciaram e se incomodaram com o evento? Ou pessoas que presenciaram ficaram incomodadas e postaram nas redes sociais, sendo apoiadas por outras, causando tanta indignação que acabou parando na mídia/imprensa?

        Só pra pensar. Cada um dentro de sua capacidade de perceber movimentos subjetivos, ou não. Cada um dentro de sua capacidade de perceber quando os fins justificam os meios, ou vice-versa.

           Eu faço arte. Quem quiser trabalhar comigo não precisa temer, às vezes assumo riscos para falar de temas bem polêmicos e controversos, mas não costumo usar subterfúgios como costurar vaginas para apoiar um discurso 😉

Até

Ps.: Como atriz que sou, preciso agora justificar a imagem que segue o texto:

        A liberdade da mariposa contrapondo sua existência efêmera (e curtíssima. Algumas vivem poucas semanas) faz uma analogia com a liberdade de religião a que o conceito de Estado Laico se propõe e é apresentado no texto, com a curta vida do modismo dos conceitos através do senso comum.

         Convenceu? Jura??? Mas é mentira. Só vi a mariposa na rua hoje, gostei, fotografei,  quis colocar aqui e aproveitei o texto de hoje. E sua temática ajudou na justificativa. 😉

Até de novo. 😉

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8 comentários sobre “Discursos Descuidados

  1. Laico posição neutra! sem comentários
    “Aquele que foi feito livre pelo conhecimento da verdade, se faz escravo por amor daqueles que ainda não chegaram a receber a Liberdade do Conhecimento… ” Evangelho Gnóstico .

  2. Márcia, muito bom este questionamento. o lance da laicidade tá longe de ser amadurecido neste país e vai muito além de uma queda de braço entre gays raivosos e fundamentalistas evangélicos e não vai ser uma vagina cerzida que vai nos livrar das trevas da ignorância! (e eu tava gostando da justificativa da mariposa, sua sacana! rs)

    1. huahuauahua Só demonstrativo de como é fácil justificar quando queremos 😉 Somos (nós seres quase desumanos) “experts” nisso, achar justificativas 😉 né, não?
      E no mais… adoro jogar pro alto e deixar que pensem. Nem sempre, nem todos, conseguem. Mas um dia, quem sabe… 😉

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