O que o teatro me ensinou (4) Improviso

Crédito da imagem: Http://sxc.hu
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          Sobre esse ensinamento me surge uma dúvida.  Se foi mesmo o teatro que me ensinou sobre a vida, ou se foi a vida que me ensinou sobre a arte de atuar. O que percebo é que, cada vez mais, vivemos um tempo do improviso.

          No teatro, sou o tipo de atriz que ama decupar um bom texto, cavucar nas entrelinhas, me apropriar do discurso que não é dito… com todas as letras. Curto muito a preparação, as descobertas, a pesquisa.

       Isso dito, confesso que sempre tive muita resistência ao improviso. Desde que comecei a fazer teatro, lá pros idos de 1998, com a Mestra Maria Luisa Prates. Curso livre que partia, vamos ver se você adivinha… isso, do improviso.

          Outro dia no trabalho, muito revoltada, tenho que confessar outra vez, soltei um “o lema da empresa deveria ser: É no improviso, né?” Me atenho a entrar em detalhes, por ética e mais algumas coisinhas, mas o episódio me rendeu reflexões sobre o assunto.

          Expandindo a análise para outros setores da sociedade, me caiu a ficha (dei por mim) de que o improviso é supervalorizado na sociedade atual. Quase nunca o mais preparado realmente é valorizado, mais comum ser ele preterido pelos craques no improviso. Muitas vezes a um custo bem alto para quem caiu na atraente armadilha de quem “parece” que sabe o que está fazendo.

       O curioso é que, para mim ao menos, o improviso só é possível para quem está absurdamente preparado. É um paradoxo, mas a ideia me ocorre apoiada na velha máxima que diz que “passarinho que come pedra sabe o cu que tem”. Ouvimos muito isso na faculdade, e concordo muito. Quanto mais conteúdo “em estoque”, mais possibilidades de lidar com o imprevisto. O paradoxo se dá quando pessoas absolutamente despreparadas, desses passarinhos que só comem pedrinhas, conseguem improvisar com tamanha habilidade, que conquistam elogios até quando erram feio, e exatamente porque erram feio.

        Trazendo para a vida (digo, afastando um pouco do círculo da arte enquanto cenário), é o equivalente àquele cara do escritório que só é necessário lá porque tornou tudo tão enrolado que é praticamente impossível para qualquer outro entender e desenrolar a caca toda. E ele? Ele segue improvisando, com novas cacas que ninguém mais consegue limpar. Nem ele.

           Tenho conteúdo para lidar com o improviso, e continuo gostando da parte preparatória (no teatro e na vida), mas… hoje já lido um pouco melhor com ele. Craque? Nãããã… quem sabe um dia? Enquanto isso, mantenho as mangas cheias.

           Mágicos causam admiração, impressionam e chocam também. 😉

           Mas isso… talvez seja papo para outra postagem. 😉

          Até.

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2 comentários sobre “O que o teatro me ensinou (4) Improviso

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