Tempestade

Crédito da imagem: http://sxc.hu
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          Ela saiu do prédio e olhou para cima. Mirou um céu azul, o sol forte ainda iluminava tudo e aquecia o ar já tão abafado. Olhou primeiro para a direita e observou as nuvens branquinhas e fofas se exibindo com seus recortes que lembravam aqui e ali uma forma. Uma borboleta, um microfone, uma cortina de teatro, um livro… Voltou-se para a esquerda e ficou chocada ao perceber uma imensa nuvem cinza, um cinza escuro, uma nuvem que trazia a sensação de sujeira, assustadora, claustrofóbica, um grupo de serpentes, prontas para dar o bote. Queria correr o mais rápido que pudesse para a direita, encontrar um jardim verde e florido, cheio de borboletas e gente cantando e dançando, com roupas esvoaçantes e tiaras floridas na cabeça, mas sabia que seu caminho estava na esquerda. Já não sabia mais porque tinha que ir para lá, mas sabia que tinha. Respirou profundamente e devagar, tentando expelir todo o ar transformado de seus pulmões e células, pegou o casaco na bolsa, segurou-o firmemente com as duas mão à frente do corpo, quase como um escudo e foi.

             Não tinha avançado nem uma quadra  inteira quando sentiu os primeiros pingos grossos. Em poucos segundos a chuva caía torrencialmente. Vestiu o casaco, ali mesmo embaixo da chuva, sem se preocupar em procurar na bolsa um guarda-chuva. Não dava tempo, já estava encharcada e só o vestia para usar o capuz como protetor de sua visão, que a água da chuva embaçava, como as lágrimas a embaçam quando choramos.

             Ficou parada um tempo, vendo as pessoas correndo, como se a corrida fosse poupá-las de se molharem, ou de pegar um resfriado, talvez. E teve um acesso de riso. Um riso que se transformou em gargalhadas, em gargalhadas histéricas e, em seguida, em choro. Chorou por perceber que, diferente daquelas pessoas, não tinha forças pra fugir, tinha se entregue àquela tempestade, e nem se importava se um raio a atingisse. Não via motivos pra lutar contra a tempestade, infinitamente mais poderosa que ela.

             Quando o choro abrandou ela tirou o casaco, desistindo de proteger a visão das águas externas, uma vez que suas lágrimas faziam o trabalho por elas, largou-o no chão e seguiu andando, devagar, sem rumo, sem pressa, sem destino certo. Foi deixando pelo caminho sua bolsa, os sapatos, a vergonha, o medo, a coragem, os pensamentos… Deixou a tempestade levar tudo embora e seguiu seu caminho, sem enxergar um palmo à sua frente.

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9 comentários sobre “Tempestade

  1. Amei Márcia….dia desses aí me deixei molhar pela chuva, não tive vontade de fugir dela, talvez um pouco sem força misturada a necessidade me molhar.

    Bjss,

    Adelaide.

  2. Marcia, um dos meus primeiros textos que escrevi, a temática era mais ou menos essa. Sentimentos comuns a todos né. Vontade de se esvair em lágrimas e limpar a alma. Texto muito bem conduzido, num crescente e cadência bem legais. Você escreve divinamente pode crer! Vou ver se acho o meu e posto pra você ler. Bjs

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