Desejo efêmero

Crédito da Imagem: Http://sxc.hu
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          Ela estava ali há muito tempo, tempo demais até. Tempo suficiente para ter visto muita coisa. Ela se perguntava se era justo viver tanto tempo na imobilidade, enquanto aqueles outros que ela via iam embora antes, mas estavam sempre em ação, sempre em movimento.

          Lembrou-se do princípio. No início, nos seus primeiros dias, ela via aqueles seres, que se movimentavam através de dois longos membros. Pareciam sempre cansados. Com o tempo ela começou a ver aqueles seres em cima de outros seres que tinham quatro membros ainda mais longos. Depois ela começou a ver aqueles seres de quatro membros puxando caixas, que pareciam ser do mesmo material do qual ela era composta e que tinham duas esferas que faziam com que se movimentassem. Aquelas caixas com o tempo ficaram maiores e ganharam mais duas esferas. Passado algum tempo, as caixas mudaram e já não eram mais do material do qual ela era composta. Continuavam com quatro esferas, só que, então, não usavam mais aqueles seres de quatro membros a lhes puxar. Andavam sozinhas. Era magia! Imaginou que, na ânsia de poupar os seres de quatro membros, os outros tinham aprendido essa mágica. Ficou impressionada, pensando em como aqueles seres, que ficavam tão pouco por aqui, tinham tanta sabedoria. A ponto de aprender magia, a fazer mágica! Em tão pouco tempo! Enquanto ela, que passara tantas dezenas de translações aqui, nem sequer imaginava como fazer algo assim. Se soubesse magia, moveria-se como eles. Quantas vezes tentara sair do lugar, sem sucesso? Por essa imobilidade, essa incapacidade, essa impotência, para ela restava ficar observando ciclos. O tempo em que deveria desfolhar, o tempo em que deveria renovar suas folhas, seu tronco, dar flores e frutos. E o tempo passava tão devagar. Eles se iam e ela continuava ali. Viu tantas iguais a ela serem arrancadas, tiradas de sua inerte vida. E não sabia se sentia pena, ou inveja.

          No início ela tentou se comunicar com aqueles seres, mas nunca, nenhum deles respondia, ou parecia responder. Depois de um tempo ela desistiu de tentar se comunicar com eles. Definitivamente eles não deviam se comunicar através da mesma linguagem. Lhe restava a companhia da esfera luminosa, que ficava na parte de cima, tão perene quanto ela. Sempre estivera ali. Nisso era privilegiada, acreditava, afinal podia ver por todos os lados, acima, abaixo, na frente e atrás, mesmo sem sair do lugar. Sua companhia de tanto tempo era às vezes uma esfera, às vezes um sorriso, às vezes quase invisível. Sentia-se profundamente encantada por ela. E sentia sua falta quando ela não aparecia e a parte de cima ficava cinzenta.

           Nesses dias observava mais aqueles seres efêmeros. Muitas vezes eram tantas caixas que passavam por ali, que passavam bem devagar. E, então, ela via alguns olhando para ela, e também para sua esfera luminosa. Nessas vezes se perguntava se eram tão encantados por sua esfera quanto ela. Se percebiam o quanto eram privilegiados pela capacidade de movimento e aprendizado. E principalmente, pela efemeridade que lhes pertencia…

*** “Escrito” no trânsito…

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