Organismo vivo

Crédito da imagem: Http://sxc.hu
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          De seu recôndito esconderijo ele o observava. Sua visão era unilateral, só o enxergava de seu ponto de vista. De dentro. Vislumbrava se formarem, por segundos, o que pareciam veias, pequenas ramificações de artérias, condutoras da sua energia vital. Aquela reação podia ser uma febre, uma defesa desse organismo, tentando expulsar de suas entranhas vírus e bactérias que estavam lhe deixando doente. Enquanto o observava foi pouco a pouco percebendo que, vivendo dentro de seu organismo, podia ser, ele mesmo, um vírus inofensivo, uma bactéria, ou um nutriente, uma enzima, que na hora certa teria sua utilidade, ou não, e seria descartado quando expirado seu prazo. Era assim que aquele organismo hospedeiro se relacionava com seu observador parasita anônimo.

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          E o hospedeiro observado se comunicava com seu parasita em silêncio. Da mesma forma como nosso corpo nos envia mensagens quando sentimos fome, sede, frio, calor, cansaço, angústia, expectativas, tristezas, alegrias, amor… O hospedeiro observado dizia o que o parasita deveria fazer sem uma única palavra. E quando o parasita não entendia suas mensagens… você não iria gostar de vê-lo chateado. Essas observações e reflexões o fizeram sentir profunda empatia pelas moléculas que habitavam seu próprio corpo. Será que se conversasse com elas, elas entenderiam sua linguagem? “Querido tecido adiposo, não preciso mais de você, queira se retirar, por favor”. Será que o organismo hospedeiro que habitava falava com seu observador parasita anônimo e ele não o entendia?

          O organismo hospedeiro observado de suas entranhas parecia ao seu observador parasita anônimo ter um senso de humor peculiar. Se divertir mostrando caminhos errados e muitas vezes enfeitados de coincidências. Para o observador ele parecia um gigante sem coração. Às vezes uma mãe super protetora. Dependendo de seus interesses, ou de suas necessidades. Um organismo muito volúvel, no sentido figurado, apesar do adjetivo lhe caber tão bem quanto.

          O observador parasita anônimo pensava, então, nos nutrientes do organismo hospedeiro observado; imaginava a proteína com crise existencial. Para que estamos aqui? Qual o sentido de nossa existência? – E a coitada morre sem saber que ajudou o atleta a ficar musculoso. Isso lhe lembrava algo. Será que a proteína gostaria de saber realmente? Claro que estava pensando nele mesmo.

          Assim, depois de tanto refletir, resolveu que da próxima vez que perguntasse ao organismo hospedeiro observado se iria chover e recebesse como resposta: de laranja, ou de cenoura?, simplesmente responderia: verdade, é verde e continuaria seu ciclo, mesmo que não entendesse porque, ou exatamente por não entender, seguiria aproveitando raros momentos de felicidade fragmentada. Afinal, pensou ele por fim, às vezes o conhecimento é uma sacola pesada…

Crédito da imagem: Http://sxc.hu - Editada por Márcia Tondello
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5 comentários sobre “Organismo vivo

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