O que o teatro me ensinou (2) – Ponto de Tensão

O que o teatro me ensinou (2) – Tensão x relaxamento

 Crédito da imagem: http://sxc.hu

Crédito da imagem: http://sxc.hu

          Dando continuidade a temática “Sobre o que o Teatro me ensinou”, hoje vou falar sobre tensão x relaxamento. Mais um mecanismo do teatro que também encontramos em filosofias orientais, como no livro A Arte Cavaleiresca do Arqueiro Zen.

           Somos criaturas tensas por natureza. Andamos sobre dois membros somente, isso exige um nível de tensão para gerar o equilíbrio necessário para essa façanha.

         No teatro precisamos também de um nível de tensão para estarmos atentos ao que acontece ao nosso redor (inclusive na plateia) para tirarmos proveito disso, presenteando o público com nosso estado no aqui e agora; talvez a única forma de lhe oferecer uma troca real de experiências. Por outro lado é necessário um estado de relaxamento que permita essa escuta, que lhe proporcione serenidade para lidar com os imprevistos, pois estamos falando de uma arte feita ao vivo, com pessoas que podem errar, ou mecânicas auxiliares que podem falhar. Tenho uma boa dezena de situações com esse tipo de ocorrência para contar. Qualquer um que já tenha feito teatro tem.

            Vou contar uma, só para sua diversão.

          Estávamos em temporada em um teatro pequeno e o mezanino onde ficavam os operadores de som e luz era próximo da vara em que ficavam os refletores frontais. Em uma de nossas apresentações alguém do som, ou da luz, esbarrou na vara e as luzes piscaram e balançaram. Imediatamente um colega em cena aproveita “Ih! Outro ataque de Zeus?”, em referência a outro momento em que as luzes piscavam e soava um trovão, pois Zeus tinha tido um ataque. Todos em cena reagiram ao comentário e, ao perceber a luz estabilizada, continuamos de onde tínhamos parado. Esses momentos dão vida ao teatro, pois nos colocam verdadeiramente no presente, apesar das centenas de ensaios para que “tudo desse certo”.

          Você pode achar que os atores em cena estão suuupeeerr relaxados, como se estivessem no sofá de sua casa. A ideia é que pareça algo assim mesmo, mas na verdade não estão. Se estiverem realmente assim, você sairá do teatro com uma sensação desconfortável de que nada realmente te “tocou”, não “chegou em você”. É o que poderíamos chamar de blasé (ou teatro a toque de caixa, se preferir). Falta densidade, fica raso, soa blasé. O ponto de tensão é o que dá o norte 😉

Crédito da imagem: http://sxc.hu
Crédito da imagem: http://sxc.hu

          Durante a faculdade de teatro, muitas vezes éramos estimulados a perceber o ponto de tensão em nosso próprio corpo para relaxá-lo. Pois bem. De tanto fazer o exercício nas aulas, uma vez acabei fazendo isso inconscientemente enquanto dirigia. Descobri que quando tentava relaxar a expressão da boca eu tensionava os braços nessa situação. E assim fui aprendendo a relaxar, apesar da atenção que a direção exige. É o mesmo ponto do teatro, se a tensão for demais ou o relaxamento for demais, a ação fica prejudicada. Temos que achar o ponto certo entre os dois extremos, assim como em tudo na vida. Experimente analisar essa questão em outros aspectos cotidianos, como cozinhar, lavar, ler, namorar…

Ponto de tensão x relaxamento. Mais um aprendizado do teatro para usar na vida.

Até.

Anúncios

Um comentário sobre “O que o teatro me ensinou (2) – Ponto de Tensão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s