A Toque de Caixa

Curiosidade: O que é a toque de caixa?

Expressão popular que significa: feito às pressas,imediatamente.

Crédito da imagem: http://sxc.hu
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Teatro a toque de caixa

        Bah! Já vou ter que começar com uma denominação que não me agrada. “Mercado” me trás à lembrança um lugar barulhento, tipo feira, como o bazar de especiarias e o Grand Bazar de Istambul. Lugares para venda e barganha de mercadorias, mas vamos lá…

       O mercado cultural mudou bastante nos últimos anos. Mas só posso falar da MINHA experiência nele. Sorte de quem tem/teve experiências diferentes. E na minha opinião, baseada nessas experiências, mudou para pior.

         As vulgarmente chamadas “panelas” sempre existiram. Assim caminha a humanidade (tribos, lembra? Tem uma postagem sobre isso ali do lado). E tenho que admitir que entendo o mecanismo em que elas se formam, sem julgamento. Acontece que é um processo natural alguém preferir trabalhar com quem já conhece, com quem já fez outros trabalhos que funcionaram. Se observar bem, diretores têm atores preferidos. Seguindo a lógica, produtores têm diretores preferidos e administradores têm produtores preferidos… Sem problemas.

      O problema começa quando a preferência pela amizade e outros interesses menos profissionais se sobrepõem a mecânica acima. ISSO é panela. Ele se agrava quando os donos dos teatros percebem que pode ser mais lucrativo arrendar um teatro do que administrá-lo. Que funcionar com ocupação é muito mais vantajoso, afinal, você se livra de encargos trabalhistas que encarecem qualquer negócio (e vamos combinar, o “negócio” de teatro não tem lucros que justifiquem esses gastos) em troca de ceder o espaço como sede temporária e pauta para um determinado grupo. Isoladamente essa estratégia é riquíssima para ambas as partes, os grupos ocupantes e os teatros, mas… quando os dois itens problemáticos andam de mãos dadas (panela e ocupação) aí não começam os problemas, aí não se agravam os problemas, aí começa a morte da arte e o nascimento de um teatro a toque de caixa. Mas vamos por partes.

Crédito da imagem: http://sxc.hu
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       Já há alguns anos que temos bons cursos superiores de formação por aqui. Isso aumenta muito a produção, mas se a demanda se restringe à panela, muitas dessas produções (certamente, entre as muitas, algumas de valor artístico inegável) ficam batendo de porta em porta, mendigando espaço, sem sequer serem levadas em consideração.

      Por experiência posso dizer que alguns grupos dessas ocupações já citadas chegam ao cúmulo de fornecer informações enganosas aos grupos desconhecidos que as procuram, para invalidar a avaliação de seus projetos. Chega a ser covarde. Eles não dão espaço, não pela qualidade do trabalho, que não chega a ser verificada, mas porque não conhecem e, exatamente, porque não se dão ao trabalho (aquele que foi oferecido em troca do espaço/sede) de conhecer.

       Em contrapartida, narrarei um episódio, que a ética me exige ocultar nomes e detalhes que possam identificar as partes, mas que ilustra bem como essas “panelas” geram o tal teatro a toque de caixa.

        Permitam-me uma introdução que se faz necessária: Passamos, eu e o grupo com quem trabalho, em torno de um ano fazendo pesquisas sobre uma inquietação proposta para desenvolver a pesquisa que culminaria na montagem de um espetáculo. Essas pesquisas envolveram uma doação de todos os membros em vários aspectos, inclusive emocionais, pois nos enchíamos de conhecimento sobre coisas duras que estão aí e que muitas vezes a sociedade escolhe ignorar. Pesado. Tiveram períodos em que pensamos em mudar para algo menos social, realista e bizarro. Talvez uma remontagem de um clássico, uma comédia. Mas não, sabíamos da importância de colocar aquilo na mesa para reflexão. Seguimos. Passamos por várias etapas que nos mostraram o caminho da pesquisa de linguagem para descobrir COMO falaríamos daquilo artisticamente. Essa etapa concluída nos voltamos para a pesquisa do ator e a construção da dramaturgia de forma simultânea. Mais alguns meses de trabalho sério. Sem ganhar um tostão, pelo contrário. E por último a etapa de montagem, dando continuidade sempre na pesquisa do ator, agregando novos membros para o elenco, confeccionando paralelamente o cenário, todo reciclável, assumindo mais uma responsabilidade social que acreditamos inerente à arte, e começamos, só então, o trabalho de produção. Busca por parcerias, teatros etc.  Pronto, já posso narrar o tal episódio agora.

        Encontrei uma pessoa que estava no processo de preparação de alguns projetos seus para enquadrar no incentivo da Lei Rouanet (quem já tentou sabe, coisa de maluco se quiser fazer tudo corretamente, com valores reais e tudo o mais, enfim…). Essa pessoa já tinha enquadrado vários projetos seus no tal incentivo, um deles eu conheci e dou testemunho de que é muito nobre e merecido que o tenha recebido. Nos encontramos para resolver um outro trabalho, que nada tinha a ver com o que ela estava preenchendo. Então, papo vai, papo vem, ela me fala:

– … consegui que meu projeto fosse aprovado, agora tenho um mês para escrever a peça.

Ao que retorqui:

– Você ainda não escreveu a peça? E fará isso em um mês? Você não tem medo de sair um trabalho a toque de caixa?

– Já estou acostumada.

– Nossa! Eu levei mais de ano em pesquisas para escrever meu último trabalho… não faria em um mês.

Percebi que a pessoa ficou “incomodada” com minha colocação.

– Ah! Mas eu já fiz muita pesquisa.

     Fim do relato. O que ele me confirmou? Que trabalho na contramão. Primeiro trabalho e tenho algo em que confio e acredito para depois tentar produzir, enquanto o “mercado” (olha ele aí de novo) exige que você apresente a ideia disfarçada de trabalho e construa algo em prazo mínimo após conseguir a verba. Taí, é o nosso mercado gerando o teatro a toque de caixa. Teatro pequeno, sem envolvimento, de qualquer jeito. E é isso o que o mercado nos oferece aos montes, pois são esses que conseguem se manter nele. E o pior? Acreditam que estão fazendo um trabalho digno. Há controvérsias.

     Às vezes assisto alguns desses (é o que tem pra assistir no final das contas, salvo raríssimas exceções) e fico lamentando que alguns deles sejam ideias ótimas, mas desenvolvidas muito aquém do que poderiam. Fazendo uso de estereótipos, justificando a precariedade de cenários, figurinos, e até qualidade de encenação com discursos pró “pós moderno” (ou seja lá o nome que isso terá daqui algum tempo). Mas quando você conhece as ferramentas, os caminhos explorados e os mecanismos dessas produções, é nítida a vulgaridade dos recursos a que elas lançam mão. E, considerando o exposto lá em cima, entramos num círculo vicioso de mais espetáculos do mesmo. Até que o público comece a perceber o padrão e canse deles. Mas ainda vai demorar um pouco, afinal, o mecanismo não deixa muitas opções para que o público possa comparar e desenvolver um senso crítico a esse respeito.

      Tenho visto gratas exceções no Centro Cultural Banco do Brasil, mas para chegar lá o caminho é ainda mais estreito. Primeiro há de se fazer o nome da companhia, coisa impossível dentro da engrenagem que se apresenta. Uma engrenagem que exige conhecimento prévio de membros do conselho.

      E assim o “mercado cultural” enterra o verdadeiro fazer teatral, na minha opinião, colocando o “teatro de barganha” no lugar. E tenho dito.

 

Até.

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2 comentários sobre “A Toque de Caixa

  1. Ou você entra na panela ( se vende ) ou continua juntando esforço, dedicação e dinheiro para mostrar o bom trabalho sem ser o modismo da sociedade e sim a salvação da cultura.

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