Geração “Eu odeio!”

“As postagens dessas crônicas / artigos de opinião de última hora refletem impressões inerentes às circunstâncias e momentos vivenciados e observados quando de sua escrita. Elas não têm compromisso com a posteridade, não pretendem ser definitivas, afinal o mundo gira, as opiniões mudam, tudo se transforma, principalmente para quem pensa. Postagens contraditórias podem ocorrer.”

Raiva-Soco
Crédito da imagem: http://www.sxc.hu

Aviso: Esta é uma postagem extra, pois a produção está bem maior que o padrão de uma postagem por semana.

          Eu tenho uma AMIGA (é com letras maiúsculas mesmo). Peraí, não é verdade, tenho duas. É que são amizades diferentes. A segunda é parceira de manguaça, de jogar conversa fora, mas guardá-las com carinho, que incentiva, dá bronca, é incentivada, leva bronca, que tem gostos e ideias parecidos, como a primeira. Mas essa primeira de que falei é daquelas que é irmã mais nova, terapeuta, advogada, fã, ídola, mãe, irmã mais velha, professora, aluna… é tudo junto. Se você tiver UM(A) amigo(a) assim, você é privilegiado(a). Sério. Ah, e ela é musa também. Por isso toquei no assunto. A ideia do texto de hoje surgiu de um de nossos bate-papos de 2:30h no telefone.

            Entre uma infinidade de outras coisas, falávamos de como os jovens estão perdidos hoje, se debatendo num mar agitado, sem saber se prendem a respiração, ou se gritam o mais forte que puderem pedindo ajuda. Muitas vezes, na dúvida, não fazem nem um, nem outro e ficam a deriva, esperando virar lanche de tubarão.

Raiva-Fogo
Crédito da imagem: http://www.sxc.hu

          Quem convive com adolescentes e jovens recém saídos dessa fase maravilhosa (tá rindo do que? Para eles é MAAAAAAAAARAAAA!!!) já deve ter reparado que as frases mais usadas por eles muitas vezes começam com “eu odeio…”. “Eu odeio beterraba!” Pobre beterraba, se esforçou tanto pra brotar, morreu para nos alimentar e…”eu odeio” (não, eu não, eu adoro beterraba). “Eu odeio sol!!” Não, querida, você não odeia o sol, você pode não gostar desse calor insuportável que está fazendo, mas o sol é essencial para sua sobrevivência por aqui, ok? “Eu odeio quando falam que ele é meu namoradinho”, “eu odeio gente feia dando em cima de mim”, “eu odeio…”

            É uma fase de extremos, também odiamos e amamos muitas coisas quando passamos por ela. Mas tenho a impressão que, apesar da fantasia que o politicamente correto montou, há o cultivo de uma sementinha de preconceito nessa(s) incubadora(s). Tenho a sensação de uma granada sem pino, pronta para explodir no menor movimento descuidado. Panela de pressão…ah… as metáforas são infinitas. A real é que parece que atualmente eles nutrem ódio mortal por tudo aquilo que…não lhes agrada. Que coisa!

Raiva-maçã
Crédito da imagem: http://www.sxc.hu

            Fica uma impressão de que, talvez, a cada geração tentamos (nós, seres humanos) proteger nossos filhos do “sofrimento”, facilitando tanto tudo pra eles, que qualquer coisa que os desagrade, aborreça, ou dê trabalho, eles “odeiam”.

Quando será que vai dar tela azul e “resetar” esse mundo? Será que vai? Pode ser. Uma hora o ciclo se fecha. Mas não tenho esperanças de que as gerações atualmente por aqui cheguem a ver isso.

         Isso me lembrou um livro que li faz muito tempo e que descrevia o renascimento de um mundo após uma gigantesca catástrofe, causada pela tecnologia. Era do pai de uma amiga. Qual era mesmo o nome do livro…?  Pena… não lembro. Mas lembro bem que, assim que os sobreviventes foram se juntando, a sociedade como conhecemos foi renascendo, com igreja, leis, escolas e assim por diante.

          Mas voltando a geração “eu odeio”. É realmente preocupante. Será que é preciso mesmo odiar algo que seja contrário as nossas escolhas? Resolvi ser atleta, ou ao menos me dedicar a saúde. Ok. Bom pra você. Mas você não precisa odiar os sedentários. Resolvi ser intelectual, ou pelo menos me dedicar aos estudos. Ok. Ótimo pra você. Mas você não precisa odiar os baladeiros. Sinta compaixão, está no seu direito, mas respeite os caminhos escolhidos por cada um.

          Eu tenho uma aversão a gente esperta, que está sempre levando vantagem sobre os outros na malandragem. Tento entender essa aversão cada vez que ela se remexe nas minhas entranhas (porque ela se remexe). E tento, acima de tudo controlá-la. Admito que é mais difícil quando a esperteza dos outros me afeta diretamente. No trabalho, no trânsito, na rua… Se estiver ao meu alcance, eu não deixo. Sei que sou uma gota d’água no oceano, mas ainda prefiro servir de exemplo com atitudes. Percebo muitos olhares de escárnio, ou incredulidade. Tudo bem, quem sabe no inconsciente dos donos desses olhares eu plantei uma sementinha. Muito provavelmente estou lutando por causas perdidas, mas foi a forma que encontrei de transformar essa aversão (ódio?) em compaixão.

         Para efeito de exemplificação, eu passei uns dois anos apagando e jogando a guimba de meu cigarro na lixeira, em frente ao meu trabalho, enquanto as colegas jogavam no chão. Algumas vezes elas seguiram meu exemplo, mas o hábito era mais forte. Um dia elas apareceram com um porta guimba. Mas só porque tinham instaurado lei com multa para quem jogasse lixo no chão. Foi um pouco frustrante. Dois anos, talvez mais, regando a sementinha sem vingar. É, as vezes a punição é o único conscientizador. Mas isso já é papo para outra postagem. 😉

Até.

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10 comentários sobre “Geração “Eu odeio!”

  1. Conhecendo seu blog e adoraaaandoooo!
    Não posso contar quantas vezes por dia ouço o mantra “eu odeio…” E, como mãe e professora, comungo desta mesma sensação de que a coisa tende para uma total intolerância mútua entre diferentes. Quanto à malandragem institucionalizada neste país, foi motivo pra um desabafo recente no meu blog. Nenhuma causa é perdida, eu acho, e se forem, que seja. Como na letra de uma música:

    “Muito prazer me chamam de otário
    Por amor às causas perdidas.
    Tudo bem, até pode ser
    Que os dragões sejam moinhos de vento
    Tudo bem, seja o que for
    Seja por amor às causas perdidas”

    Abraço.

  2. Amei! Hahaha Note quem sigo ali na direita 😉 Aliás, no exato instante em que hoje virar amanhã terá postagem nova lá. Só para garantir: blogessinger é o blog do autor dessa música maravilhosa 😉

  3. Trabalho há mais de vinte anos com adolescentes e sei bem como é isso. Outro dia até falei a um grupo de alunos aqui na biblioteca onde trabalho: Nossa! Como vocês são preconceituosos! Tudo que difere de vocês, vocês odeiam! Aliás, é a palavra de ordem em suas bocas. Ai falaram: Ah tia! Você não odeia ninguém? Disse: Procuro não usar essa palavra no meu vocabulário. Mesmo que não curta alguma coisa ou alguém, procuro conhecer nem que seja para reafirmar minha opinião. Mas odiar? Não mesmo.
    Enfim, espero que esses jovens um dia mudem suas opiniões e forma de pensar e agir. Para o bem deles.
    Abraço!

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